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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Poon Lim, o náufrago que sobreviveu 133 dias à deriva em uma balsa

Um recorde com poucas possibilidades de ser batido pertence com a justiça ao jovem marinheiro Poon Lim; que em novembro de 1942 passou sozinho, após um naufrágio, mais de quatro meses a sorte do mar e do destino em uma balsa improvisada e tão cheia de carências como vazia de víveres. Uma incrível história de sobrevivência que inspirou centenas de manuais de resistência do exército norte-americano e britânico.
Poon Lim nasceu em 1917 na ilha de Hainan, no sul da China. Com 25 anos e em plena Segunda Guerra Mundial decidiu trabalhar como marinheiro nos pomposos navios mercantes britânicos.
O navio em que trabalhava foi atingido por um torpedo e afundou , ele nadou até encontrar uma das balsas de apoio do navio e desmaiou

Dia 1. A Intendência.
Com as primeiras luzes da manhã Poon recuperou a consciência e acordou do pesadelo da realidade. Sua balsa, uma desengonçada embarcação de 3x3 metros feita de tábuas de madeira sobre latões de 200 litros, continha um pequeno kit para a sobrevivência de quatro pessoas durante alguns poucos dias. Sob uma alçapão da balsa encontrou:
Oito latas de pequenas bolachas britânicas;
Um barril de água de 30 litros;
Duas barras de chocolate;
Alguns torrões de açúcar;
Alguns sinalizadores, duas tigelas de alumínio e uma lanterna.
Não tinha sinais de velas nem de remos, o que provocou a constante deriva da limitada embarcação. Poon calculou que as provisões eram suficientes para 20 dias, motivo pelo qual seu ânimo e esperança de resgate eram bastante otimistas.
Semana 2. A solidão e o avião.
Poon Lim passava dias e noites tratando de encontrar qualquer sinal de vida. Um navio ou uma aeronave que lhe resgatasse, mas seus esforços resultaram vãos e inúteis. Uma noite, um avião passou por ali . Poon Lim disparou um dos sinalizadores . Nenhuma mudança de trajetória no avião. Uma vez mais, só na escuridão da noite.
Semana 4. Um presente do vento.
Um entardecer, após seus rotineiros exercícios nadando entre tubarões ao redor da balsa para não perder a forma, Poon Lim sentou-se para meditar buscando uma lembrança salvadora no horizonte. Seu olhar, perdido, regressou a seu passado, sua infância, sua família, seus quadros, suas telas......seu pensamento confundiu-se com a realidade ao divisar um pedaço de lona naval a uns vinte escassos metros do barco. Provavelmente, deveria ser do navio que afundou. Sem piscar, Lim pulou na água e nadou o mais rápido possível para alcançar o pedaço de lona.Poon Lim utilizou o trapo para improvisar uma pequena barraca de campanha na balsa e assim proteger-se do sol que estava rasgando a pele. Mas a sorte foi ainda maior ao descobrir atada em um dos extremos da lona, uma longa corda de cânhamo que utilizou para se amarrar à balsa nos dias de tormenta e evitar sua perda nas inumeráveis quedas.
Semana 6. A criatividade da fome.
Com o fim das provisões acentuou-se a perspicácia. A partir da sétima semana Poon começou a desenvolver o instinto mais arcaico do homem; aquele que levou-o a se perpetuar acima de qualquer hábito e doutrina.Desmontou a lanterna, inútil e já gasta, para forjar um anzol com uma de suas peças metálicas. Durante dois dias ficou conformando com os dentes e seu sapato-martelo até encontrar a forma adequada. A corda serviu de linha de pesca e a última bolacha foi reservada como isca para a primeira captura: Uma pequena sardinha que serviu de isca, por sua vez, para maiores capturas. Com as tampas dos potes de bolachas improvisou afiadas facas para destripar o pescado e retirar alguns dos pequenos moluscos que já aderiam à balsa e melhor serviam como isca.As capturas não eram constantes e dependiam das correntes marítimas e dos bancos de peixes. Uma tarde a balsa adentrou em um imenso banco de pescado que permitiu que Poon enchesse literalmente a barca de capturas que serviram para os dias de mais carência.Poon pôs o pescado para secar uma vez limpo, separando tripas, vísceras e sangue que armazenava nos cantos da balsa. Tal foi o acúmulo de capturas e vísceras que começou a ter um problema de cheiro e putrefação impedindo, inclusive, sua correta oxigenação. Cometeu então um dos poucos erros de sua travessia quando, ao se desfazer das vísceras e sangue, provocou a chegada de uma legião de tubarões que ficaram rondando durante vários dias, espantando qualquer vislumbre de pesca e provocando a maior crise de fome da viagem.
Semana 8. Tubarões.
Os tubarões não iam embora e Poon não tinha como pescar. A fome conduziu-lhe à única opção que restava: tinha que caçar um tubarão.Para isso voltou a fabricar um novo anzol, maior e resistente, com um dos pregos que uniam as tábuas de madeira a sua estrutura. Com seu sapato-martelo e a garrafa moldou a vasta agulha que amarrou, de novo, a sua corda, desta vez trançada para aumentar sua resistência. A última cabeça de pescado serviu como isca
O tubarão eleito, a menos de dois metros, mordeu e agitou a isca, Poon sabia que sua única opção era puxa-lo de uma vez só para a balsa e matá-lo a punhaladas. Em 10 minutos tinha as tripas do tubarão enlatadas, as barbatanas secando e como refresco tinha preparado o sangue do fígado.
Semana 12. A loucura da sede.
Depois do consumo da garrafa inicial da água. Poon automatizou a coleta da água procedente das chuvas e tormentas utilizando o duplo forro de sua jaqueta com um peso e com um buraco para reconduzir ao interior da garrafa. Até a décima semana o ritmo de chuvas, devido à estação, tinha sido suficiente, mas após uma grande tormenta que acabou com todas as provisões sólidas e líquidas e com meia balsa iniciou um período de seca que resultou na desidratação de Poon.Derrotado pela tormenta, observou como os albatrozes e gaivotas vagueavam a zona alertados pela podridão. Poon pegou todo tipo de algas e plantas marinhas do fundo da balsa e as amontoou como um ninho para atrair as gaivotas enquanto esperava agachado e coberto com os restos da lona.Quando um albatroz baixou ao ninho com restos de pescado, Poon lançou-se sobre a ave e a dentadas cortou seu pescoço para chupar seu sangue e devorar sua carne. Alguns dias mais tarde a chuva regressou e Poon recuperou sua quota de água doce.
Semana 14. Um barco a 50 metros.
Durante uma manhã de sua 15ª semana no Atlântico, Poon foi acordado por um forte apito marinho. Ele pensou que era parte de seu pesadelo, mas logo depois divisou um imenso cargueiro americano aproximando-se até uns 50 metros de sua balsa. Segundo comentou posteriormente, alguém percebeu que era chinês justo dantes de manobrar e se perder de novo no horizonte.Uns dias antes Poon havia sofrido a visita de um esquadrão aéreo norte-americano, que divisou e inclusive lançou uma bóia com marcador desde o ar. Uma tormenta paralisou o possível resgate e dispersou a patrulha aérea.
Dia 130. O princípio do fim.
Poon Lim contava os dias com moscas em um dos lados da balsa, e as noites com cruzes. Posteriormente utilizou pequenos pedaços de corda para computar o calendário lunar. No dia 130, notou que a água estava com uma cor mais verde pálida que de costume. Uma grande revoada de pássaros voava próximo a sua embarcação e uma grande quantidade de algas flutuavam na superfície. Todos estes eram sinais que animaram sua esperança de uma costa próxima.
Dia 133. O resgate.
Na manhã do dia 133, em 5 de Abril de 1943, viu um pequeno veleiro no horizonte. Não tinha mais sinalizadores e por isso saudou agitando sua camiseta em um esforço para atrair a atenção da tripulação. A embarcação mudou de direção e dirigiu-se a ele.Os três homens do pequeno barco pesqueiro, que falavam português, o levaram a bordo. Deram-lhe a água e um grande prato de feijão e continuaram pescando, pois não podiam regressar a terra sem a pesca. Três dias mais tarde seguiram rumo ao oeste de Belém, na foz do rio Amazonas. Poon tinha percorrido 1.200 quilômetros.

As Honras
Poon Lim saiu caminhando sem problema após o resgate. Sua perda de peso durante a deriva foi de 10 kg e passou alguns dias se recuperando no hospital antes de viajar para Nova Iorque.Recebeu numerosas honras. O rei Jorge VI outorgou-lhe pessoalmente a Medalha do Império Britânico, o prêmio civil mais alto. A Marinha Britânica editou folhetos impressos e colocou-os em todas as balsas salva-vidas de seus navios descrevendo as técnicas de sobrevivência experimentadas por Poon Lim. Enquanto, a "Ben Line Shipping Company", companhia armadora do barco afundado, presenteou Poon com um relógio de ouro.
Após a guerra decidiu emigrar para os EUA, mas a quota de cidadãos chineses estava completa. Só a mediação do senador Warren Magnuson mediante um projeto de lei, que foi aprovado pelo Senado dos EUA e a Câmara de Representantes, serviu para emitir um visto de imigração para Poon Lim e permitir que residisse de forma permanente nos EUA. Instalou-se em Nova York com filhos e netos e morreu, septuagenário, no Brooklyn em 4 de Janeiro de 1991. Lim entrou para o Livro Guinness dos Recordes como o homem que mais tempo passou flutuando em alto mar.
Fonte: mdig

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